“Sexo na Bíblia” – J. Harold Ellens

Com exceção da frase “sexo antes do casamento é pecado” (e suas variações como “masturbação é pecado”, “isso é pecado”, “aquilo é pecado”), sexo é um assunto não discutido na igreja e em lares cristãos. Não é preciso muita perspicácia para perceber que igreja e sociedade secular estão em campos completamente distintos na questão da sexualidade, sem diálogo nenhum. Alguns cristãos vão dizer até que não há nada com o que se dialogar, sexo antes do casamento é pecado, masturbação é pecado, homossexualidade é pecado, e “ponto final”.

O “ponto final” acima foi posto de propósito. Cristãos fundamentalistas tendem a “encerrar” quaisquer problemas com alguma interpretação particular das Escrituras, “ponto final”. Na questão da sexualidade essa tendência cresce ainda mais. Você pode começar discutindo com um amigo evangélico se é correta a validade da união estável homossexual, mas provavelmente a discussão vai terminar com ele exigindo que você reconheça que a homossexualidade é pecado.

Agora, o que é “pecado”? Algo que foi pecado ontem continuará sendo pecado amanhã e sempre? Ora, obviamente temos exemplos contrários na Bíblia. No Antigo Testamento temos o relato de pessoas que foram mortas por trabalharem no Sábado (isto é, terem cometido um grande pecado); no Novo Testamento isso muda. Atualmente a larga maioria dos evangélicos considera o consumo de bebida alcoólica pecado, mas Jesus não pensava assim (já que o primeiro milagre dele foi transformar água em vinho e, ele próprio, consumia bebidas alcoólicas). O mundo muda e com ele mudam nossas perspectivas sobre o que é ou não pecado.

Ora, se nossa consideração sobre pecado é variável (e de forma alguma fixa), faz sentido emitirmos juízos “e ponto final” sobre o que é pecado? Não é mais prudente que façamos releituras sobre isso de tempos em tempos? Não é proveitoso continuamente revermos nossos conceitos? (Eu não entendo a aversão dos conservadores aos termos “releitura” “rever conceitos”. “Reler” significa “ler novamente”; “Rever” significa “ver novamente”. Devemos fazer isso sempre em todas as áreas de nossas vidas, não?)

Pois bem, o pastor, teólogo e psicólogo clínico J. Harold Ellens, contrariando a turma do “e ponto final”, apresentou em seu livro “Sexo na Bíblia” (Fonte Editorial, 2011) novas considerações e perspectivas para várias questões sexuais à luz da Bíblia. Para o autor não basta dizer que a homossexualidade é pecado. Não devemos nos limitar apenas a perguntar o que a Bíblia diz sobre a homossexualidade. Também temos que analisar criticamente o que o autor realmente quiz transmitir quando escreveu o texto que lemos hoje, 3, 4 mil anos depois; em que contexto ele escreveu; para quem escreveu; e, por fim, analisar o que do que foi dito é normativo para nós, hoje, e em que medida.

Por exemplo, o mesmo livro de Levítico que condena a homossexualidade trata a mulher durante sua menstruação como “impura”, assim como qualquer um que lhe tocar. Isso é normativo para nós hoje? Outro trecho em Levítico diz que não devemos comer nada com sangue. Isso é normativo para nós hoje? Será que comer picanha mal passada é pecado? Logo depois temos um mandamento que nos proíbe cortar cabelo e barba? Devemos andar como mendigos a partir de hoje?

Não podemos ser simplistas e simplesmente afirmamos “ponto final” sobre qualquer questão só porque existe uma ordem na Bíblia sobre isso. Temos um mandamento bíblico? Ele foi escrito por quem? Para quem? Em quais circunstâncias? Com que objetivo? É isso que J. Harold Ellens faz em “Sexo na Bíblia”.

E ao analisar a Bíblia buscando resposta para as questões sexuais, Ellens expõe muitas coisas claras e descaradas na Bíblia que frequentemente não observamos. Permitam-me listar algumas: Cântico dos Cânticos (também chamado de “Cantares de Salomão”) é um livro erótico judaico que narra o romance sexual entre um homem casado (Salomão) e uma amante; a poligamia não apenas não é questionada no Antigo Testamento, ela na verdade exerce um papel social muitíssimo importante no mundo da época; mulheres na Bíblia (Rute, Raabe, Ester e Tamar) foram elogiadas exatamente por terem atingido seus objetivos fazendo uso de sua sensualidade sexual (o que muitos chamariam de prostituição).

Como você já deve ter percebido, o livro não é nada ortodoxo em suas considerações e certamente será taxado pelos conservadores como “liberal”. No entanto, apesar de não concordar com o autor em alguns pontos, é difícil simplesmente ignorar o peso das perspectivas apresentadas por J. Harold Ellens em “Sexo na Bíblia”.

O livro foi traduzido por mim, Eliel Vieira, e será lançado no Brasil pela Fonte Editorial com a presença do próprio autor dia 14 de Setembro, em São Paulo, durante o 2º Theologando Internacional.

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6 Respostas para ““Sexo na Bíblia” – J. Harold Ellens

  1. Hum, tinha ouvido falar desse autor. O Paulo Brabo escreveu alguns textos recentes com base em alguns perspectivas do cara acerca do que se entende por “graça” e “graça barata.” Já tinha dado pra ver que, concordando um não com o que ele diz, é impossível ficar indiferente.
    E, cara, acho de extrema importância que obras assim sejam lançadas por aqui. Pelo que acompanho, o mercado editorial brasileiro voltado para livros de temática cristã é muito limitado a certas temáticas e a uma perspectiva conservadora na maioria dos sentidos (posso estar errado ou simplesmente procurando nos lugares errados, mas acho que não.) Autores com ideias um pouco menos ortodoxas e conceitos teológicos que causem muita discussão lá fora tendem a sair por aqui em refutações. Basta ver o exemplo do teísmo aberto. (Sei que não tem nada a ver com a temática do livro que é tema do post, mas uso-o apenas a título de ilustração). Não consegui encontrar UM ÚNICO livro lançado no Brasil que defenda essa nova perspectiva teológica. Por outro lado, há no mínimo três títulos de refutação ao TA lançados por aqui. Ou seja: você não tem a chance de efetivamente ouvir o que os proponentes dessa doutrina estão dizendo; eles estão errados, e aqui demonstramos isso.
    O mesmo ocorre com vários outros temas, como o universalismo, por exemplo, e também a homossexualidade. Lá fora ocorre um debate mais aberto sobre o assunto, com a produção de livros que tratam dessas questões; defesas não chegam por aqui – ao menos as editoras de maior expressão não as lançam -, mas refutações à esses “ataques” à perspectiva reformada, com isso podemos contar.
    Enfim, é por isso que vejo com bons olhos o lançamento desse livro. Por mais que eu discorde de tudo que o autor diz, quero ter a chance de ler o que ele efetivamente diz – não o que um outro autor diz a respeito dele.

  2. É, rapaz… A temática da sexualidade permanece um tabu – em qualquer campo.

    A verdade é que, apesar das matérias ‘construídas’ pela grande imprensa, no sentido de estimular a ‘abertura relacional’, o diálogo familiar, neste sentido, mostra-se insuficiente – e assim permanecerá – na geração de um ‘campo gravitacional’ em torno do qual as mentes convirjam para uma ‘liberalidade’ – laica, destaque-se.

    É paradoxal, do ponto de vista religioso, a concepção de que é necessário assumir uma postura contextualizada frente às ‘mudanças sociais’ – realocando, arbitrariamente, valores consagrados pela tradição (que, inclusive, além da característica inata ao homem de buscar o numinoso *R. Otto*, é a verdadeira âncora que permite a manutenção da identidade religiosa).

    Não advogo posicionamento x, y ou z; até mesmo porque as questões morais (re)Atualizadas por você no texto, na remitência a fatos permitidos ou interditos na Bíblia – segundo concepções institucionais, claro – nunca foram objeto de preocupação por parte de espíritos alargados, e sim por mentes estreitas (não no sentido pejorativo, apenas relacionando a ausência de agudeza). Percebe-se a clareza com a qual você lida com as ideias. Administrar a consciência não é algo fácil: e talvez por isso mesmo as pessoas se reportem a Deus quando reconhecem esta impossibilidade, ‘impondo’ a Ele a tarefa do gerenciamento. Esse tipo de comportamento revela um desejo oculto pela anulação da autonomia, uma fuga às responsabilidades.

    Num ocidente governado pela objetividade, a subjetividade (nesse contexto inaugurada por Lutero) ainda merece respeito, Por isso é tão importante nossa participação como co-autores blogueiros, militantes ou não na fé cristã – ou qualquer outra, sempre no sentido de atear fogo ao ideal colaborativo, de forma que se alastre – na rede ou fora dela – as chamas das ideias, das opiniões, das assertivas e dos reconhecimentos, quando assume-se a postura da honestidade diante das ‘cagadas’. Quebro aqui o protocolo nesse particípio – assim como o Malafaia com as verborragias dele – na tentativa de ajustar ‘meu texto até aqui empurrado’ às razões últimas que me levam a escrever esse pequeno trecho: Durkheim estava certo ao pontuar as características sociais da religião como elemento mais interessante nela. Parece no haver muito sentido a busca pelo diálogo interdenominacional, até mesmo porque ele nunca existirá. Se o diálogo mudasse algo no campo religioso, Boudieu estaria errado ao asseverar que ‘o campo religioso é um espaço de lutas pelo poder’. Veja o exemplo das ‘velhas’ e permanentes Oligarquias Gerônticas e Caudilhescas da Assembleia de Deus – nunca adiantou conversar; daí tantas cisões. A história basta.

    Mas um detalhe não deve ‘passar batido’. Criticado por muitos (pelas pedras que encontrou no caminho, e que por vezes o derrubaram – e ele o admite com certa franqueza), Caio Fábio lembrou, há pouco tempo, em seu site, a inexistência bíblica de interdições referentes à masturbação e ao sexo, de maneira geral. É óbvio que a a formação psicanalítica dá o tom nas manifestações daquele autor que é, sem dúvida, um dos poucos pastores brasileiros a escrever substâncias densas e concisas nesse verdadeiro mercado evangélico de autoajuda, gazopa e embuste literário.

    De fato, o livro deve ser bom, sim. Mas literatura militante sempre é militância transcrita.
    É bom orientar a galera a ler de Platão à Nietzsche, de Dostoieviski a Saramago, ou de Agostinho à Pseudo-Biografia de Silvio Santos. Tudo vale. A gente precisa se instruir cada vez mais, né verdade? Admiro tuas exposições aqui, companheiro. Parabéns por dividir a vanguarda com tantas mentes clarificadas, a levar uma palavra que ilumine a razão, sob a luz da fé, sob a luz da reflexão, sempre.

    Ufa. Forte abraço, muita paz.
    Quando quiser, faça uma visita no meu blog – incipiente e quase inerte, é verdade. Ma está lá, aguardando pessoas coo você e os amigos de teu blog!

  3. Sou totalmente a favor do lançamento de obras polêmnicas e de conteúdo pouco ortodoxo, até para que as teses sejam lançadas a discussão e possamos concluir se são verdadeiras ou falsas, boas ou ruins. Isso eleva nosso senso crítico no sentido de orientar a nossa ação em relação a uma tese que foi efetivamente discutida, pois como disse Chesterton certa vez, é muito perigoso basear nossa ação numa ideia discutível, mas que não foi discutida.

    Só acho que temos que tomar com cautela a tese da contextualidade do pecado pois, se é verdade que o que algumas vezes pode não ser pecaminoso por si, como o ato de matar em legítima defesa, se torna pecado quando vira assassinato, também não possamos tirar da nossa mente que o pecado é, essencialmente, um ato ou pensamento que nos denigre pessoalmente e denigre o nosso relacionamento com o homem e com Deus. De modo que sempre que uma pratica nos denegrir dessa maneira ela será pecado independente do contexto. Não acho que o homossexualismo consiga fugir dessa concepção.

    No mais, concordo totalmente com a temática sexual carece de debate no nosso meio e o livro será bem vindo se servir de estímulo a discussão e ao crescimento espiritual da Igreja.

  4. Passei uns meses sem te visitar porque perdi teu endereço atualizado, mas volto, com prazer, a ler teu blog. Sem dúvida, livros como o do Ellens são bem vindos nem que sejam para serem refutados. Obrigado pela indicação e parabéns pelo trabalho!!!

  5. Sexualidade e religião é um tema que muito me interessa. As igrejas realmente são carentes de abordagens sobre este assunto (herança dos irmãos católicos?).

    O ponto é que, embora os “fundamentalistas” realmente estejam certos, em última instância, sobre algumas coisas; a forma como abordam as questões não é aconselhável.

    Sexo antes do casamento é sim um erro, mas não porque Deus tem “medinho” disso, mas porque, sob circunstâncias pré-matrimoniais e instáveis (de verdade!), pode trazer uma carga emocional traumática para ambos. Isso prejudicaria não só os próprios, mas também aqueles com que se relacionariam posteriormente quando fossem mais “maduros”.

    Deus preza pela saúde física e psicológica dos seus (e de todos), por isso certas coisas, em certas circustâncias, configuram erros.
    Mas nem tudo é um “mal em si”, sendo necessário, claro, analisar caso por caso, com a devida orientação do Espírito (nosso peso de medida).

    Abç…

  6. Cara, meus parabéns, você sim demonstrou que não
    sabe absolutamente nada de biblia.
    ” o temor do senhor é o principio da sabedoria”.
    Ps: ponto final . hehe

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