“Senhor Jesus Cristo: A Devoção a Jesus na Igreja Primitiva” – Larry Hurtado

Quem eram os primeiros cristãos? Em que acreditavam? Jesus era adorado como Deus nos primeiros círculos do movimento cristão? Se sim, como a ideia da divindade a Jesus pôde se desenvolver em um círculo de religiosos extremamente monoteístas? Especialmente de um século para cá estas questões tem sido animadamente tratadas dentro do amplo escopo da discussão acadêmica sobre o Jesus histórico.

Kyrios Christos: Geschichte des Christusglaubens von den Anfangen des Christentums bis Irenaeus, lançado em 1913 pelo estudioso alemão Wilhelm Bousset basicamente foi o marco principal no século passado na discussão destas questões relacionadas à devoção de Jesus nos círculos cristãos primitivos. Bousset argumentou, em linhas gerais, que o culto a Cristo observado nos escritos cristãos mais primitivos não existia nas primeiras comunidades cristãs, entre os judeus palestinos, mas que surgiu apenas algumas décadas depois da morte de Jesus nas comunidades helenistas de Antioquia, Damasco e Tarso, devido a influências do ambiente pagão.

A obra de Bousset influenciou muito do estudo acadêmico posterior (sendo muito utilizada, por exemplo, por Bultmann), mas encontra-se, agora, ultrapassada.

Tive o prazer de traduzir para nossa língua a obra Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity (lançado originalmente em 2003), do estudioso britânico Larry Hurtado, que em breve será lançada no Brasil com o título de Senhor Jesus Cristo: a Devoção a Jesus na Igreja Primitiva pelas editoras Academia Cristã e Paulus.

Esbanjando erudição e respondendo a todas as tendências liberais de tratar os primeiros cristãos desde o lançamento de Kyrios Christos, Hurtado presenteia os estudiosos e interessados nas questões levantadas no primeiro parágrafo com um grande volume, abordando as características da devoção cúltica oferecida a Cristo no que ele denomina de “cristianismo primitivo”.

Antes de comentar um pouco sobre a obra, contudo, é proveitoso deixar um ponto bem esclarecido: Larry Hurtado é um historiador, um especialista neotestamentário, mas não um “apologista”. Ele inclusive coloca no mesmo balaio os estudiosos liberais do século passado e os “apologistas anticríticos”, uma vez que ambos, na concepção do autor, buscam oferecer respostas fáceis e superficiais a difíceis questões históricas por causa de suas “preocupações teológicas” (a preocupação teológica liberal de negar a divindade de Jesus e a preocupação teológica apologética de afirmá-la de qualquer forma). Na obra de Hurtado nós temos, portanto, um tratamento acadêmico rigoroso sobre as questões relacionadas ao culto a Jesus na igreja primitiva e não o tipo de papinha apologética que geralmente encontramos nas obras sobre as origens cristãs geralmente lançadas no Brasil.

Um forte indício da seriedade de Hurtado é apresentar em alta conta a principal obra que ele critica em Senhor Jesus Cristo, a já citada Kyrios Christos, de Bousset. Mesmo discordando de Bousset em vários pontos, já na introdução de Senhor Jesus Cristo Larry Hurtado deixa claro que “Em uma combinação entre profundidade e escopo, erudição e influência, nenhum equivalente apareceu dos anos 20 até agora desde que este livro foi publicado. Estudos sérios das últimas décadas tem tido foco bastante limitado e frequentemente estão em débito com Kyrios Christos.”

Temos em Senhor Jesus Cristo, portanto, um erudito historiador criticando e comentando um século de estudos acadêmicos relacionados à questão das origens do culto a Cristo, buscando, com sucesso, apresentar um trabalho tão abrangente, profundo e influente quanto o criticado Kyrios Christos.

No primeiro capítulo, Hurtado discorre sobre as forças e fatores históricos que podem ter ajudado a moldar a ideia da divindade de Jesus. Um destes fatores na opinião do autor, apenas para citar um exemplo, foi a postura estritamente monoteísta do pensamento judaico da época. Não fosse esta postura judaica, talvez muitas outras figuras da época teriam se deificado e se tornado objetos de adoração juntamente com Yahweh. A natureza monoteísta do judaísmo foi, de acordo com o autor, um fator histórico importante na modelagem do culto a Cristo (o autor ainda discute três outros fatores).

Tendo discorrido sobre estas forças e fatores que moldaram a devoção cúltica a Jesus, o autor então começa do capítulo dois em diante a levar a cabo uma pesquisa cronológica sobre os escritos cristãos (bem como judaicos e pagãos) analisando esta distinta característica dos movimentos cristãos de adorar Jesus juntamente com Deus (um padrão de devoção que o autor chama de “binitário”).

No capítulo dois Hurtado analisa o que podemos aprender sobre a devoção primitiva a Jesus característica dos círculos paulinos das décadas de 50 e 60 a partir das cartas de Paulo. Por que começar com Paulo? Pois as cartas de Paulo são os escritos mais antigos de que dispomos (décadas de 50 e 60) e não faz sentido um estudo histórico negligenciar os escritos relevantes mais antigos disponíveis e começar sua analise como escritos comparativamente bem mais tardios (Hurtado mostra o quão incoerente J. D. Crossan foi ao decidir programaticamente omitir Paulo de sua análise na obra The Birth of Christianity almejando se concentrar no cristianismo das décadas de 30 e 40, tendo, contudo, para tal, que recorrer a escritos muitos mais tardios do fim do primeiro século e até do segundo!).

No terceiro capítulo Larry Hurtado analisa o cristianismo da Judeia, os círculos mais primitivos das décadas de 30 e 40, anteriores a Paulo, perguntando o principalmente o que podemos descobrir sobre a devoção cúltica a Jesus neste círculo primitivo, extraindo informações principalmente das cartas de Paulo e do livro canônico de Atos. O maior êxito do autor neste capítulo foi apontar para o gritante silêncio nas cartas de Paulo sobre discordâncias judaicas em relação à mensagem que Paulo pregava sobre Jesus. Não pode haver dúvidas que o mesmo Paulo que chamou de “cães” os judeus que questionaram forma como ele recebia os gentios reagiria com igual intensidade se os mesmos tivessem questionado a mensagem de Paulo de Jesus como agente único de Deus, Messias, digno de adoração (o que só pode conduzir à conclusão de que os grupos judeus tradicionais pregavam a mesma mensagem que Paulo).

O capítulo seguinte trata sobre a fonte escrita de ditos de Jesus que foi utilizada (e, assim, preservada) pelos escritores dos evangelhos de Lucas e Mateus, a fonte “Q”, e o que podemos aprender sobre a devoção a Jesus em pequenos grupos de cristãos pré-paulinos a partir desta fonte. (Hurtado neste capítulo discute, comenta e se baseia principalmente nos estudos do pesquisador canadense John Kloppenborg Verbin, estudioso dedicado à fonte “Q”.)

Dos capítulos cinco a sete o autor se concentra nos escritos biográficos sobre Jesus, os chamados “evangelhos”. No capítulo quinto, os sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas); no capítulo seis, o evangelho de João e as epístolas joaninas; e no capítulo sete os evangelhos apócrifos (Marcos Secreto, Manuscrito de Egerton, Evangelho de Pedro, Protoevangelho de Tiago, Evangelho da Infância de Tomé e, com muito mais detalhes, o Evangelho de Tomé); sempre concentrando seus esforços nos aspectos específicos que cada escrito reflete sobre a prática da devoção a Jesus nos círculos cristãos da época.

Entre os capítulos oito e dez o autor se concentra no período entre o fim do primeiro século e as 7 primeiras décadas do segundo, mais especificamente entre os anos 70 e 170. Além de analisar textos tardios do primeiro século, como Hebreus, as cartas paulinas que são consideradas pela crítica como “posteriores” e de autoria de crentes paulinos, não de Paulo (Colossenses, Efésios e as Epístolas Pastorais) e Apocalipse, o autor pesquisa como a devoção a Jesus foi característica no que ele chama de “cristianismo proto-ortodoxo”, isto é, o ramo dentre a diversidade cristã da época que permaneceu dominante ao longo dos séculos até hoje, não deixando de analisar também as versões cristãs “heterodoxas” (por exemplo, o valentianismo e o marcianismo) que alcançaram o mesmo sucesso.

O estudo termina com um apanhado geral sobre as conclusões alcançadas pelo autor ao longo da obra, sugerindo algumas questões a serem tratadas pelos estudiosos daqui para frente.

Apresentando meu julgamento sobre Senhor Jesus Cristo em poucas palavras, eu diria que a obra cumpriu aquilo que ela se propôs a fazer na introdução: apresentar um estudo tão abrangente e profundo quanto Kyrios Christos, marcando o estudo acadêmico sobre as origens e os aspectos históricos da devoção a Jesus. Assim como Larry Hurtado teve que se referir à obra de Bousset como principal obra até então sobre a devoção cúltica a Jesus praticada pelos cristãos primitivos, no futuro ninguém poderá se referir à devoção primitiva a Jesus sem citar o trabalho de Larry Hurtado em Senhor Jesus Cristo.

Recomendo esta obra a todos aqueles interessados no estudo sobre as origens do movimento cristão, não apenas estudiosos. Apesar de conseguir imprimir todo rigor acadêmico que qualquer estudioso sério exigiria, Senhor Jesus Cristo se apresenta com um vocabulário relativamente bem acessível, possível de ser lido por qualquer curioso interessado na questão.

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2 Respostas para ““Senhor Jesus Cristo: A Devoção a Jesus na Igreja Primitiva” – Larry Hurtado

  1. Amei saber da tradução deste livro para o portugues. O meu trabalho de TCC foi sobre o Kyrios, inclusive passei um email ao Larry pedindo sobe esta obra e o mesmo respondeu lamentando na época não ter edição em nossa língua. Aguardo a chegada nos catálogos da editora Paulus para adquirir o livro.

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