O Show de Truman

O nome “Jim Carrey” sempre lembra cenas engraçadas. Na vasta maioria dos filmes (“O Máscara”, “O Mentiroso” e “Ace Ventura”, apenas para citar alguns exemplos) em que atua seu papel é de algum bobão desastrado. Contudo, esse mesmo Carrey estrela um dos filmes mais inteligentes que já vi: “O Show de Truman”.

Neste filme, o personagem principal, Truman Burbank (Jim Carrey), encontra-se desde seu nascimento em um grande Reality Show, um grande “Big Brother”, sem saber. Desde o momento em que saiu do ventre de sua mão Truman está preso em uma vida falsa, montada e modificada periodicamente, com pais falsos, amigos falsos, trabalho falso, em uma cidade falsa, com o mundo inteiro assistindo a esta farsa. Em alguns pontos da história alguns eventos são forjados para colocar Truman em situações difíceis (a morte do “pai” dele no meio do mar, por exemplo) para testar (e filmar) suas reações.

“O Show de Truman” é o tipo de filme que nos faz pensar, suscitando algumas questões bastante interessantes, principalmente éticas.

Primeiro, até que ponto os meios de comunicação podem ir em sua busca gananciosa por audiência? Claro, acredito que todos responderiam que usar uma vida desde seu nascimento como cobaia ultrapassava todos os limites do aceitável. Mas, não estaria a mídia de hoje ultrapassando muitos limites que para os mais antigos seriam igualmente invioláveis?

Mães ensinando filhas a dançar funk nas tardes de domingo; explorar os problemas e as dificuldades de pessoas mais necessitadas para conquistar audiência; fofocar sobre a vida de famosos; fazer publicidade maciça sobre as crianças, jogando-as contra seus pais. Guardadas as devidas proporções, os limites do aceitável já não foram há muito ultrapassados?

E o que garante que no futuro o tipo de estratégia midiática usada no filme (um “Show do José”) não venha a ser considerada aceitável? Não estaríamos caminhando a passos largos rumo a este tipo de programação?

Segundo, o filme lança luz crítica não apenas sobre o tipo de ação que os meios de comunicação podem levar a cabo na busca por audiência, mas também a nós próprios, os telespectadores. Afinal, o Reality Show era assistido por milhões. Algumas cenas aparecem de pessoas em um bar assistindo com olhos vidrados o que Truman fazia, assim como um casal de velhinhas se abraçando emocionadas por alguma decisão dele.

Até que ponto nos permitimos ser “conduzidos” (para não dizer “manipulados”) pelos meios de comunicação? Que diferença existe entre aqueles que espiam a vida do coitado do Truman 24 horas por dia e aqueles gastam as poucas horas livres que tem na semana na frente da TV? Não estamos nós fisgados por futilidades?

Terceiro, o tipo de inquietação que Truman vive ainda brinca com uma inquietação que (será?) todas as pessoas já sentiram alguma vez na vida. Será que toda a realidade não é uma fraude? Será que tudo não se passa de um grande teatro para nos enganar? Quem pode garantir que aqueles que se apresentam como meus pais não me roubaram na infância e estão me enganado até hoje? Lá pelos meus 10 anos eu realmente ficava me incomodando com estas perguntas.

Quarto, relacionado à questão acima, como saber o que é verdadeiro. Em épocas em que o empirismo é tão valorizado (o que podemos ver, tocar, ouvir, cheirar e degustar é verdadeiro), a pequena história falsa de Truman levanta uma questão epistemológica interessante. E se os próprios sentidos que temos não fizerem parte de uma fraude bem organizada?

Talvez a única reação que muitos tiveram ao assistir “O Show de Truman” tenha sido um leve compadecimento com aquele personagem do filme, o pobre Truman. Enquanto eu assistia o filme, no entanto, todas estas questões acima (e algumas outras que não consegui me lembrar agora) ruminavam em minha cabeça.

Bons são os filmes que, além de nos entreter, nos fazem pensar!

Eliel Vieira

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Uma resposta para “O Show de Truman

  1. Concordo plenamente com os seus comentários. A realidade humana hoje conduz a maioria de nós para o fútil e acaba criando uma preguiça mental e de reflexão em nossa vida e ao nosso redor.
    Isso acaba por nos empobrecer tanto em laços afetivos como espirituais.

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