Resenha: “Supreendido pela Esperança” – N. T. Wright

Uma das principais coisas que aprendi com todas as discussões teológicas, sociais e filosóficas das quais participei nos últimos três anos é que, se o ponto de partida (a base) entre aqueles que discutem não for o mesmo, é pura perda de tempo se preocupar com aspectos avançados da discussão e, provavelmente, a discussão não vai render. Há poucos dias atrás, por exemplo, eu me estressei com um amigo agnóstico porque ele queria evidências que demônios existissem, mas sem reconhecer que o sobrenatural pudesse existir. Estávamos em solos diferentes: ele no naturalismo e eu no sobrenaturalismo. Portanto, a discussão foi um fracasso, e trouxe apenas stress para ambos.

Só é possível haver discussão se os pontos de partida forem os mesmos. Se os pontos de partida forem diferentes, é necessário que sejam discutidos os aspectos dos pontos de partida antes de qualquer coisa. Até que haja concordância sobre os pontos de partida, sobre as bases do tema discutido, simplesmente é impossível haver uma discussão sadia.

Os primeiros comentários que ouvi sobre o livro Surpreendido pela Esperança, de N. T. Wright (Ultimato, 2009) foram que Wright fica “repetindo a mesma coisa dezenas e dezenas de vezes, capítulo após capitulo”. Eu ouvi estes comentários enquanto já estava lendo o livro e, portanto, eles não geraram em mim um preconceito que me impedisse que ler esta obra.

N. T. Wright tem uma abordagem completamente revisionista da teologia cristã. No que se refere a “Céu”, “Terra”, “alma” e “ressurreição” (e muito mais), o autor defende a corajosa posição de que a Igreja ao longo dos séculos, literalmente, entendeu tudo errado! Os pontos de partida que guiaram a teologia da igreja cristã não eram os mesmos pontos de partida que os apóstolos tinham em mente e, portanto, toda teologia precisa ser revista de acordo com os pontos de partida corretos, pois, como sugeri acima, de outro modo simplesmente qualquer discussão sobre pontos avançados da teologia não farão sentido algum.

Bem, e qual são estes pontos de partida divergentes?

N. T. Wright mostra como o dualismo platônico influenciou nossa teologia e como esta influência descaracterizou a teologia dos apóstolos e dos cristãos primitivos. Toda a teologia cristã, argumenta o autor, tem pressuposto um dualismo pagão que os apóstolos originalmente não pressupunham, e este dualismo moldou toda o pensamento, modos e liturgia cristã ao longo dos séculos.

Para N. T. Wright, até que as perspectivas sobre o ponto de partida sejam remoldadas, até que estejamos pensando conforme Paulo e os demais apóstolos pensavam, simplesmente não entenderemos o que Paulo e os demais apóstolos estavam querendo dizer em suas cartas e, desta forma, qualquer discussão sobre práticas ou modos é vã. É por isto que ele repete de forma incisiva, vez após vez, capítulo após capítulo, quais devem ser os pontos de partida corretos para uma teologia cristã saudável.

Resumir toda argumentação de N. T. Wright nesta pequena resenha seria um crime, portanto, não vou fazê-lo aqui. Aliás, eu sugiro ainda a leitura de outro livro de N. T. Wright, Simplesmente Cristão (Ultimato, 2009), antes da leitura de Surpreendido pela Esperança, a fim de que o leitor comece a ler o segundo já compreendendo parte do pensamento de Wright e, consequentemente, absorvendo melhor seu conteúdo.

Apenas a fim de fazer desta resenha um convite (na verdade, um apelo) para a leitura de Surpreendido pela Esperança, N. T. Wright mostra como a associação entre o dualismo platônico e fé cristã implica, necessariamente, na negação de tudo o que é material, na valorização do “sobrenatural” em detrimento do “natural” (pense rapidamente se não é nisto que você é ensinado a acreditar em sua igreja) e como estas implicações geram consequências práticas graves tanto em nossa vida “natural” quanto em nossa vida “espiritual”. (As “aspas” se justificam, pois esta distinção não é bíblica, é pagã.) Uma vez que a pressuposição do dualismo platônico  está enraizada na teologia que temos aprendido nos últimos séculos, a negação desta pressuposição nos faz refletir sobre tudo o que até então pensávamos ser correto.

Ao final de Surpreendido pela Esperança o leitor se verá confrontando a rever todos os seus conceitos em relação a si mesmo e ao mundo que o cerca. Terminei a leitura deste livro ontem e, acredito, no futuro me referirei à minha compreensão do Evangelho entre “Antes da leitura de Surpreendido pela Esperança” e “Depois da leitura de Surpreendido pela Esperança”. (E não estou exagerando.)

8 Respostas para “Resenha: “Supreendido pela Esperança” – N. T. Wright

  1. Esta obra está, ao lado de “A Conspiração Divina”, de Dallas Willard, entre as duas melhores obras que já li, na categoria daqueles livros que lhe dão toda uma cosmovisão.
    Excelente!

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